Depois de uma semana de uma chuva ininterrupta, São Pedro resolve dar uma folga. O sábado amanheceu ensolarado, o céu está azul, sem nenhuma nuvem. O dia está prometendo. Uma cerveja com os amigos à tarde, uma pizza com o namorado à noite. Isso aconteceria na vida de uma mulher normal. Mas para ela, uma mulher de quase trinta, recém separada, começando um novo relacionamento, com um emprego instável, isso é uma utopia.
Ela tira a bendita manteiga da geladeira para amolecer, deita no sofá, liga a TV e muda de canal freneticamente à procura de algo interessante para assistir. Não encontra e decide assistir desenho animado mesmo. Dez minutos depois, coloca duas fatias de pão de forma (sem nada entre elas pois esqueceu de comprar queijo) na sanduicheira, pega o café de ontem, põe na xícara e esquenta no microondas. Toma seu café da manhã dos deuses, troca de roupa e vai tentar, mais uma vez, organizar o apartamento (que não terminou de mobiliar).
Embola o plástico do sofá novo que está jogado no cômodo que - ainda - vai ser um escritório, coloca dentro da enorme sacola que veio o tapete novo e se dirige às grandes lixeiras de material reciclável na esquina. Com um enorme esforço, soca a montanha de plástico bolha lixeira à dentro. Por que será que eles fazem as bocas dessas lixeiras tão pequenas? - pensa aborrecida. Na volta para casa, observa o céu de brigadeiro e pensa em tudo o que fará hoje.
Arrumar a cozinha, limpar a casa, lavar o banheiro, fazer as contas do mês... tudo isso em meio a uma guerra travada entre sua poodle e a psicopata da vira-latas da irmã, que viajou para a praia e deixou o hóspede monstruoso em sua casa. No primeiro dia de hospedagem do monstro ela demorou quarenta minutos para conseguir entrar na cozinha pois a cadela tomou posse do lugar e avançava a cada tentativa de aproximação (talvez a idade psicológica da cadela também beire os trinta). Após recolher a sujeira dos cachorros e arrumar a cozinha, ela pensa no que fará para almoçar. Nem ovos! Nem frango! Nem salada! A geladeira está quase vazia. Batatas fritas! Ótima opção para um almoço de sábado. A dúvida era se o acompanhamento das batatas seria uma lata de cerveja ou um copo de suco. A consciência pesada optou pelo copo de suco, já que as batatas já fariam um estrago na dieta.
A cada cinco minutos ela confere os dois celulares. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Entra no Orkut, no MSN, no Twitter, no Facebook. Nenhuma novidade. Ninguém para salvá-la do triste destino da mulher de quase trinta, recém separada, começando um novo relacionamento, com um emprego instável e que nem terminou de mobiliar o apartamento novo. Ela respira fundo, toma coragem, põe o cd da Adriana Calcanhoto e caminha rumo à área de serviço. Vai lavar o banheiro.