sábado, 28 de agosto de 2010

Um dia com quase trinta...

Depois de uma semana de uma chuva ininterrupta, São Pedro resolve dar uma folga. O sábado amanheceu ensolarado, o céu está azul, sem nenhuma nuvem. O dia está prometendo. Uma cerveja com os amigos à tarde, uma pizza com o namorado à noite. Isso aconteceria na vida de uma mulher normal. Mas para ela, uma mulher de quase trinta, recém separada, começando um novo relacionamento, com um emprego instável, isso é uma utopia.


Ela tira a bendita manteiga da geladeira para amolecer, deita no sofá, liga a TV e muda de canal freneticamente à procura de algo interessante para assistir. Não encontra e decide assistir desenho animado mesmo. Dez minutos depois, coloca duas fatias de pão de forma (sem nada entre elas pois esqueceu de comprar queijo) na sanduicheira, pega o café de ontem, põe na xícara e esquenta no microondas. Toma seu café da manhã dos deuses, troca de roupa e vai tentar, mais uma vez, organizar o apartamento (que não terminou de mobiliar).


Embola o plástico do sofá novo que está jogado no cômodo que - ainda - vai ser um escritório, coloca dentro da enorme sacola que veio o tapete novo e se dirige às grandes lixeiras de material reciclável na esquina. Com um enorme esforço, soca a montanha de plástico bolha lixeira à dentro. Por que será que eles fazem as bocas dessas lixeiras tão pequenas? - pensa aborrecida. Na volta para casa, observa o céu de brigadeiro e pensa em tudo o que fará hoje.


Arrumar a cozinha, limpar a casa, lavar o banheiro, fazer as contas do mês... tudo isso em meio a uma guerra travada entre sua poodle e a psicopata da vira-latas da irmã, que viajou para a praia e deixou o hóspede monstruoso em sua casa. No primeiro dia de hospedagem do monstro ela demorou quarenta minutos para conseguir entrar na cozinha pois a cadela tomou posse do lugar e avançava a cada tentativa de aproximação (talvez a idade psicológica da cadela também beire os trinta). Após recolher a sujeira dos cachorros e arrumar a cozinha, ela pensa no que fará para almoçar. Nem ovos! Nem frango! Nem salada! A geladeira está quase vazia. Batatas fritas! Ótima opção para um almoço de sábado. A dúvida era se o acompanhamento das batatas seria uma lata de cerveja ou um copo de suco. A consciência pesada optou pelo copo de suco, já que as batatas já fariam um estrago na dieta.


A cada cinco minutos ela confere os dois celulares. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Entra no Orkut, no MSN, no Twitter, no Facebook. Nenhuma novidade. Ninguém para salvá-la do triste destino da mulher de quase trinta, recém separada, começando um novo relacionamento, com um emprego instável e que nem terminou de mobiliar o apartamento novo. Ela respira fundo, toma coragem, põe o cd da Adriana Calcanhoto e caminha rumo à área de serviço. Vai lavar o banheiro.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Apresentações

Quando eu era criança eu queria morrer antes dos trinta. Eu achava que, com trinta anos, eu já estaria cansada de viver, que já teria tido todas as experiências que uma pessoa poderia ter e que seria uma boa hora para descansar.

Hoje eu rezo todos os dias e peço perdão a Deus (que ainda não sei se existe) pelas insanidades ditas no passado. Imagina se Ele (caso exista) leva á sério e eu morro amanhã? Quantas coisas mal acabadas eu deixaria... coisas não, deixaria a vida mal acabada! Até hoje eu não fiz nada que prestasse! Aliás, fiz sim: lambança! Isso é o que não falta no meu portfólio.

Primeiro eu nasci... no dia 26 de dezembro. Não tinha nada melhor pra fazer então resolvi tumultuar o natal de todo mundo e fiz minha mãe passar pela deliciosa experiência de ficar internada enquanto todos comiam peru e tentavam curar a ressaca do dia anterior. Ao invés de dar lembrancinhas para as visitas no hospital minha mãe distribuía engov.

Eu cresci um pouco e logo me tornei filha de um avião. Meu pai foi morar na África quando eu tinha 1 ano. Fui levá-lo ao aeroporto. Depois disso todo avião que passava minhas irmãs diziam: “Olha lá o papai! Dá tchau pra ele”. Seis meses depois, quando fui buscá-lo, confundi tudo. Minha mãe disse: “corre pro papai!”. Meu pai abriu os braços me esperando e passei direto. Corri para o avião!

Mais tarde eu quase me tornei um menino. Andava de skate, soltava pipa, jogava bola, brincava de carrinho, pulava muro, subia em telhados. Nessa época a conta do hospital era alta. Raio X, tomografia, eletroencefalograma, concussão cerebral e enxerto se tornaram nomes tão comuns quanto Atari, Lego, Barbie e Pogobol...

Na adolescência as coisas mudaram. Demorei, mas descobri que havia uma mulher dentro de mim... para desespero dos homens e, principalmente, dos meus pais. As 13 anos lá estava eu, na sala de casa, com meu namoradinho de 1,85 de altura. Minha mãe se trancou no quarto revoltada com minha audácia, mas depois se acostumou.

E vieram outros namorados, novas descobertas...
E veio a faculdade, e outras descobertas....
E veio o casamento... e mais descobertas.
E veio o divórcio... e muitas descobertas
.
E se aproximam os trinta anos... e são tantas tantas tantas descobertas juntas... tantos hormônios... tantos desejos, tantas realizações, tanta construção, tantas coisas acontecendo ao MESMO TEMPO, numa VELOCIDADE TAMANHA que se eu não dividir isso com alguém eu vou ter um treco!

E como sempre eu refleti calmamente sobre o assunto. Pensei em tudo o que estava acontecendo e decidi: vou criar um blog!

Sejam bem vindos!


Viviane Wehdorn.